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SAMBA, ANTES DE SER BRASILEIRO, ELE É NEGRO!
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. Afro Reggae . 02/12/2004 |
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* Por Christine Keller
Foto: Afro Samba levando um samba de raiz no Pagode do Arlindo Cruz, por Ierê Ferreira
Eu sou o samba, A voz do morro sou eu mesmo, sim senhor, Quero mostrar ao mundo que tenho valor, Eu sou o rei do terreiro. Eu sou o samba, Sou natural daqui do Rio de Janeiro, Sou eu quem leva a alegria Para milhões de corações brasileiros... (“A Voz do Samba” – Zé Kéti)
Dois de dezembro, Dia Nacional do Samba, e esse trecho do inesquecível Zé Kéti retrata de maneira direta e simples o significado deste estilo musical que é marca registrada do nosso país. Claro, que hoje em dia, nem todo samba segue ao pé da letra o significado destes versos, seja pela qualidade, intenção ou por estar muito longe do morro... E isso porque o samba, assim como a capoeira, as religiões afro e muitas outras vertentes da nossa cultura, caíram no gosto nacional, ou, sejamos mais corretos em dizer, são mais “aceitos” pela maioria das pessoas.
Mas o samba é negro, sim senhor! Sim, o samba, que ultrapassou fronteiras e que hoje enriquece muita gente, (assim como diversos outros estilos como o rock, o reggae, o hip hop, o blues, o jazz... quase todos...) têm origem negra, nas nossas raízes negras!! Ainda que tentem embranquecer o samba, (e porque não dizer, tentam fazer isso com todos os estilos que têm origem na nossa Mãe África...) ninguém muda a realidade.
Antes de ser brasileiro, o samba é negro e assim como a capoeira e as religiões afro, no início, já levou muita gente para trás das grades, proibidos de manifestar nossa cultura, nossas raízes. E porque isso acontecia? PRECONCEITO. Então, se ninguém é mais preso (pelo menos teoricamente), por sambar, por jogar capoeira ou praticar religiões como a Umbanda, Candomblé, Batuque, Tambor de Mina, entre outras, isso que dizer que o preconceito no Brasil não existe mais, que tudo é aceito, que somos, afinal, um país que respeita as manifestações culturais de seu povo e que ninguém mais é discriminado? Bem, se você acha isso, com certeza não está no Brasil. E vai conseguir me fazer rir!
A verdade é que todas as manifestações culturais que têm origem negra, e com o samba não é diferente, são bem aceitas apenas quando possuem um viés da cultura branca. Quando essas manifestações aparecem na grande mídia ou são adotadas por personalidades “de pele mais clara”, são normalmente mais bem aceitas, ou, porque não dizer, inseridas dentro da sociedade brasileira. Ou, em outras palavras, deixa de ser cultura negra (alguns acham isso, fazer o que?), para ser uma identidade nacional.
É óbvio que estar na mídia pode ser muito bom, assim como ser referência e apreciação independente da cor da epiderme. Bom mesmo seria se todas as epidermes fossem tratadas da mesma forma, independente da cor, já que raça é uma só, a humana.
O preconceito contra o que tem origem negra retrata um problema muito maior que é o preconceito e a discriminação contra os afro-descendentes (se bem que, vamos combinar que no Brasil todo mundo tem ancestralidade africana, ameríndia e lusitana, no mínimo...).
Claro que o samba e tudo o que tem origem africana não mudará jamais a sua procedência, o seu berço, ainda que tentem fazer isso. Ainda bem! Mas a preocupação deve ir além disso.
Essa maneira de tratar as manifestações de origem negra e também as indígenas, não é de hoje. Tudo começou há muito tempo, na época do Brasil Colônia. Lembra? O absurdo da escravidão e dos índios sendo catequizados como se fossem seres irracionais... Mas chorar o leite derramado não traz o leite de volta. Temos que mudar isso, talvez com menos blá blá blá e mais ação, união, luta mesmo. Nada muda de uma hora para outra. Talvez levemos mais 504 anos para realmente ter um outro quadro, mas temos que começar.
Então, vamos desfrutar do nosso samba, da nossa rica cultura que além de portuguesa, é talvez até mais ainda que lusitana, afro e ameríndia, entre outras procedências. Mas, sem nos esquecermos que, é necessário sempre estarmos bem cientes de que muita coisa ainda precisa mudar, e só depende de nós começarmos.
* Texto originariamente publicado no site do Grupo Cultural Afro Reggae (www.afroreggae.org), na seção Colunistas. Christine Keller é jornalista e coordenadora da Comunicação do Grupo Cultural Afro Reggae (GCAR) |
Escrito por Dandara_RJ às 16h06
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