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Foto: Oferendas à minha Ya Yemonjá,
31/dez/04, foto por Ierê Ferreira
“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.” (Nelson Mandela)
Foto: Reveillon em Copacabana, por Ierê Ferreira (2004)
Esse pensamento do líder da África do Sul, Nelson Mandela, abre a cartilha intitulada “Diversidade Religiosa e Direitos Humanos” , que foi editada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Governo Federal.
A cartilha surgiu da necessidade de fazer valer o artigo 5º, inciso VI, da Constituição que diz: “É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.” Ainda segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos: “A liberdade religiosa é um dos direitos fundamentais da humanidade.”
Ou seja, tanto a Declaração Universal dos Direitos Humanos quanto nossa Constituição garantem a toda e qualquer pessoa a liberdade de escolher sua religião, professa-la e praticá-la, seguindo seus rituais e fundamentos, sem com isso ser importunada, discriminada, punida, difamada, censurada ou repreendida. O que vale dizer que a pessoa não deverá sofrer nenhum tipo de discriminação ou exclusão em quaisquer ambientes da nossa sociedade, seja no trabalho, nos círculos de amizade ou familiares, clubes, na rua, etc, em virtude de sua opção religiosa.
Apesar da diversidade cultural e riqueza da nossa história (que sempre nos é contada segundo a visão “branca” na escola) bem sabemos que não é assim. Mesmo o nosso querido Brasil tendo recebido sempre, desde a sua “descoberta”, povos de todas as partes do mundo, o que ainda domina alguns setores da sociedade é o pensamento (herança da colonização lusitana) de que o Catolicismo é a “religião do país”. Segundo algumas pesquisas, a Igreja de Roma vem apenas perdendo espaço para as Igrejas Pentecostais. Mas e as religiões de matriz africana como a Umbanda, Candomblé, Batuque, Tambor de Mina, Xangô de Recife, o Catimbó, Sociedades de Culto de Ifá, etc? Algumas delas, inclusive, como a Umbanda e o Catimbó, possuem também influências ameríndias.
E essas religiões (e seus adeptos e seguidores) na maioria das vezes sofrem discriminações. E porque isso acontece? PRECONCEITO, eu diria. Em primeiro lugar por serem de origem africana e/ou ameríndia e em muitas cabeças de nosso país ainda persistir o nocivo pensamento de que, tudo que vem dos negros e dos índios é inferior. Ou seja, mais uma vez nos deparamos com o racismo escrachado.
O segundo motivo é porque a maioria das pessoas que tem o péssimo costume de pré-julgar sem conhecer, falam o que não sabem, deturpam e saem falando besteira e discriminando pessoas e religiões!
Claro que sabemos que em todas as religiões existem pessoas de má-fé, que fazem coisas erradas, que não podem ser denominadas de religião. Não é disso que estamos falando.
Claro também que pesquisas podem ter várias interpretações (ou serem direcionadas) segundo quem as executou ou as encomendou...
Claro, que na grande imprensa (e na pequena também, apesar de que pra mim, tudo é imprensa...), existem pessoas íntegras e outras nem tanto assim... Jornalistas que pesquisam e outros que escrevem ou divulgam qualquer coisa, sem critério ou checagem...
Enfim, também não confio muito no IBGE (que não passou na minha casa e na de centenas de pessoas que conheço). Tudo bem, pesquisa de amostragem, mas e daí?
As religiões de matriz africana e/ou ameríndia estão ai e seus adeptos querem apenas (e têm esse direito), praticá-las sem serem discriminados ou excluídos de nenhum grupo por isso.
Também é preciso dizer que nós adeptos também temos, às vezes, nossa parcela de culpa. E claro, quando digo isso, não estou generalizando. Temos culpa quando não assumimos nossa religião.
Temos culpa quando dizemos que somos católicos ou espíritas quando alguém nos pergunta qual é nossa religião (e isso também acontece na hora de responder à pesquisa do IBGE!). Temos culpa toda vez que alguém que não conhece nossa religião a deturpa e ficamos calados sem procurar mostrar um pouco do que é nossa religião. Temos culpa cada vez que ficamos competindo para tentar ser ao invés de nos unirmos para lutar pela liberdade religiosa, pela preservação de nossa cultura, pelo respeito enfim.
Assim como as discriminações contra os negros, judeus, estrangeiros, homossexuais, deficientes físicos, pessoas acima do peso, pessoas de idade, e por ai vai (para um país tão eclético, somos quase campeões em discriminações...), para acabar com a discriminação religiosa é necessário lutarmos. Afinal, é nosso direito!
** Christine Keller (Dandara) é jornalista, Umbandista e no momento também pesquisando e chegando mais perto do Candomblé e das outras religiões de matriz afro. Atualmente coordena a Comunicação do Grupo Cultural Afro Reggae. Já trabalhou nas revistas Guitar Player Brasil, Dynamite, no portal StarMedia Brasil e Poladian Produções Artísticas, entre outros.
Escrito por Dandara_RJ às 17h54
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